Podemos falar em impacto social quando não consideramos as desigualdades estruturais?

Como explica o filósofo Silvio Almeida, autor de “O que é racismo estrutural”,  longe de ser uma anomalia, o racismo é “o normal”: “Independentemente de aceitarmos o racismo ou não, ele constitui as relações no seu padrão de normalidade”.

Esse equívoco de narrativa resulta na desvalorização da cultura, intelecto e história da população negra. Mina suas potencialidades e, principalmente, aumenta o abismo criado por desigualdades sociais, políticas e econômicas.

É um problema evidenciado por números. No Brasil, pessoas negras são mortas com mais frequência que pessoas não negras: negras e negros representam 75% das vítimas de homicídio, segundo o Atlas da Violência de 2019. São maioria, também, em meio à camada mais pobre da população: dos 10% de brasileiros mais pobres, 75% são negros, segundo o IBGE.

O racismo é estrutural. De acordo com Silvio Almeida: “Racismo estrutural é  essa naturalização de ações, hábitos, situações, falas e pensamentos que já fazem parte da vida cotidiana do povo brasileiro, e que promovem, direta ou indiretamente, a segregação ou o preconceito racial. Um processo que atinge tão duramente — e diariamente — a população negra”. 

Para falar sobre os efeitos do racismo na sociedade brasileira é preciso encará-lo como um fenômeno essencialmente transversal. É preciso entender que ele forma uma teia de violências que afeta jovens, homens e mulheres encarceradas e encarcerados;  que define os mecanismos que regem o tráfico de mulheres e meninas; que afeta a vida da população LGBTQI+, da população quilombola e ribeirinha;e que explica o preconceito contra as religiões de matriz africana, ameaçando seu direito de existir.

Impossível negar que tais dados e fatos merecem atenção nas avaliações de impacto social. Os processos de avaliação julgam o mérito das iniciativas sociais e constroem olhares para dizer da capacidade destas em contribuir para processos de transformações sociais. Diante destas premissas, qual tem sido a capacidade dessas iniciativas no enfrentamento ao racismo? Se ele é estrutural, atentar-se para ele não é uma escolha, acaba sendo também mais uma premissa. 

O racismo está em todos os lugares, constrói relações e pauta decisões. Portanto, a desigualdade racial não é um recorte. Não é um olhar específico, pois ela conforma o todo. Molda. Restringe possibilidades para um grupo e amplia para outro. Se ela não é um recorte, ao não olharmos para ela enquanto pesquisadoras/es, produzimos leituras parciais da realidade ou até mesmo equivocadas. Em um processo avaliativo, estas afirmações demonstram que as nossas perguntas (na pesquisa) têm que ser capazes de construir leituras para a questão racial. 

Ao longo de nossa trajetória profissional, nos deparamos na construção de processos avaliativos com situações nas quais a organização demandante solicitou não perguntar a raça/cor nos questionários, pois o projeto não tinha foco na população negra. Fazendo uma análise crítica e técnica, as indagações são: ao se fazer isso, que realidade se quer olhar? para qual realidade se quer construir alternativas? 

Ao admitirmos que gênero e raça são estruturantes, afirmamos que elas são fundantes e, conformam uma sociedade onde gênero e a raça moldam as relações em todos os níveis. Isso se confirma quando percebemos que as instituições (organizações da sociedade civil, escolas, partidos políticos, igrejas, entre outras) adotam padrões de funcionamento que privilegiam determinados grupos sociais em detrimento de outros. Sendo assim, as práticas, políticas, técnicas e modos de racionalidade (de pensar), construídos nos âmbitos institucionais, naturalizam o domínio do grupo dominante que, por consequência, reforçam desigualdades e, desta forma, contribuem para um impacto social negativo. 

Ou seja, as instituições não criam o racismo, mas o reproduzem porque elas fazem parte deste mundo onde a questão racial conforma relações. Desde conversas nos corredores das escolas até processos seletivos em grandes empresas. 

Investigar adequadamente os modus operandis e redirecionar iniciativas focadas em impacto social positivo é uma das grandes contribuições de uma avaliação antirracista. 

E para executá-la, nós também temos nossas reflexões. “Uma avaliação antirracista pode ser construída apenas por pessoas negras?” é o tema do próximo conteúdo por aqui!