O mito do universal X O mito do específico

Entendemos que a avaliação e o trabalho avaliativo devem estar a serviço da equidade. Abordar “o mito do universal x o mito do específico” significa acreditar que equidade racial tem de ser um horizonte comum para todas as pessoas. Este é um dos conceitos debatidos por Walquíria Tiburcio, uma de nossas coordenadoras e especialista em avaliação antirracista, que abordou “os mitos” durante sua participação no 15o Seminário Internacional de Avaliação, organizado pela fundação Itaú Social. 

Considerando o contexto de nossa prestação de serviços – que abrange basicamente empresas, institutos e fundações e organizações da sociedade civil – é cabível ressaltar que os conflitos raciais são também parte das instituições. Esta é uma, dentre as diversas razões, que nos impulsiona a incorporar e aprimorar nossa avaliação antirracista (tema do último e dos próximos dois textos desta série). 

Quem demanda e investe em uma avaliação quer descobrir quais foram os resultados da política, projeto ou programa. Quando perguntamos de que forma as questões de gênero e raça são/foram consideradas/endereçadas por aquela iniciativa, uma resposta bastante comum (ainda que isso venha mudando) é que, ao se trabalhar com as camadas populares ou, por exemplo, para tangibilizar, alunos/as de escolas públicas, trabalha-se com o todo. “Nós não focamos em uma população específica” é uma resposta bastante comum. 

Há uma crença de que, ao não se reconhecer experiências de grupos, ou seja, não se reconhecer as diferenças, é uma forma de se instalar processos de igualdade. Quando na realidade, a superação das desigualdades passa necessariamente pelo reconhecimento das diferenças, buscando compreender quais são suas consequências para os diferentes grupos sociais, para que seja possível construir caminhos e estratégias a fim de superá-las. Ao afirmarmos que a questão racial e de gênero são estruturantes, adotar estas lentes na construção de processos de avaliação não é ou não deveria ser uma escolha. É um caminho e uma decisão técnica. 

Tivemos a experiência de participar de uma roda de conversa na RBMA (Rede Brasileira de Monitoramento e Avaliação) com avaliadoras/es e pesquisadoras/es negras/os para fazer um debate crítico das diretrizes de qualidade para avaliação no Brasil. Naquela ocasião, uma das questões em diálogo foi a importância de apontar o contexto em que estamos. E o contexto brasileiro aponta para um racismo letal, que contempla dados como “a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado nesse país”. 

Diante disso, fazemos um convite para uma reflexão: Quem está dentro do que é considerado universal?

Finalizamos com mais uma pergunta: O que as avaliações têm a ver com isso? Esta é a abordagem do nosso próximo conteúdo. Acompanhe!